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Com ou sem propaganda abstencionista, não faltam as manifestações de
cepticismo na democracia representativa, e o que vemos por todo o mundo é uma
colossal perda de legitimidade desses regimes. Por João Bernardo
Os inquéritos sociológicos indicam que a maioria dos participantes em
eleições não se ilude quanto à eficácia do sufrágio, por isso vota mais contra
um partido ou um candidato do que a favor de outro partido ou de outro
candidato. Quer estas pessoas sejam de esquerda ou de direita ou de lugar
nenhum, ir pregar-lhes que as eleições são um logro é chover no molhado. Para
evocar um exemplo do outro lado do mundo, recordo que nas eleições legislativas
realizadas em Madagáscar em 1989 contaram-se cerca de 40% de abstenções, o que
a oposição considerou uma vitória, visto que lançara um apelo nesse sentido.
Mas como esta taxa de abstenção não parece superior à de outros países onde as
oposições apelam à participação no voto, veremos neste artigo que com ou sem
propaganda abstencionista não faltam as manifestações de cepticismo na
democracia representativa. Com efeito, serão raros aqueles que julgam que podem
mudar o mundo através do voto. Uns esforçam-se por conservar o tipo de
sociedade em que vivem, sem pretenderem alterá-la, e não há dúvida de que as
eleições são adequadas para deixar tudo na mesma fingindo que mudam alguma
coisa. Outros, os insatisfeitos, esperam, no máximo, que ao acirrarem as
contradições no interior das classes dominantes e ao remodelarem o pessoal
governante consigam respirar um pouco melhor. Mas quaisquer que sejam os
espaços possíveis de obter através dos resultados eleitorais, o facto decisivo,
a meu ver, consiste na enorme taxa de abstenções, e é este aspecto que vou aqui
analisar. Deixo de lado os regimes ditatoriais, onde a participação no voto é
manipulada e as estatísticas eleitorais são fictícias, e não mencionarei também
os países africanos, onde a carência de infra-estruturas de comunicação torna o
voto muito aleatório.